Sr. Ninguém (2009) | Crítica

Por: Nick Marques

Complexo e fascinante, o filme de uma forma poética trabalha sobre um grande questionamento que existe na mente na maioria das pessoas, a imensa dúvida que paira a mente de quem repensa uma decisão tomada; O filme retrata de forma brilhante a concepção de efeito borboleta, e de uma forma mais realista que os filmes que levam o nome desse conceito.

As primeiras cenas do filme utilizam “a Superstição do Pombo” para abordar a busca do ser humano por um significado nas aleatoriedades da vida, o que serve como uma demonstração da influência do acaso na história de uma pessoa específica e a tentativa de dar um significado ao mesmo, sem que necessariamente haja, fazendo com que o homem crie padrões e superstição que acreditamos interferir em nossa vida e disfarçando a fria realidade que o mundo nos mostra: “tudo acontece por acaso”.

Mr. Nobody é repleto de questionamentos humanos, retratados conforme as idades de Nemo (Jared Leto), desde sua infância e adolescência, chegando a sua vida adulta e por fim seus 118 anos, de onde partimos em sua primeira aparição no longa. Cada dúvida e escolha são muito bem encaixados e têm sua real importância na fundamentação de cada linha temporal abordada pela trama escrita e dirigida por Jaco Van Dormael.

O filme faz uma fantasiosa interpretação da teoria das cordas, explica de forma dinâmica as dimensões que compõe o universo (3 dimensões de espaço e 1 de tempo), e em determinada cena, Nemo faz uma pergunta fundamental para a concepção da ideia “Se a teoria das cordas está correta , o universo possui 9 dimensões espaciais e uma temporal, mas se as outras dimensões que existem não forem de espaço e sim de tempo?” A indagação é crucial para entender o dom de Nemo, explicado durante a história como “Lembrar do futuro”; o personagem é uma personificação da perfeita compreensão matemática do universo, do paradoxo temporal e da teoria do caos (toda a base científica do efeito borboleta).

Mr. Nobody demonstra com maestria o contraponto de cada escolha que fazemos: nossas escolhas também nos fazem! No grande ápice, o repórter pergunta ao último mortal qual das linhas temporais de vida é a verdadeira e o velho diz que todas são reais, “todas valem a pena”, que simboliza o grande significado de aquele senhor ser o “Ninguém”, de Nemo ser o Senhor Ninguém, ele ainda não fez as decisões que consequentemente também o fariam “alguém”, tudo não passa da grande resolução matemática que sua mente é capaz de criar, ele não existe, ele é apenas uma possibilidade, tudo que lhe acontece não passa de uma ilusão de sua mente feita para que um menino de nove anos seja capaz de tomar uma decisão “impossível”, como o mesmo Sr. Ninguém define.

A grande mensagem que o filme tenta passar talvez seja que não existem escolhas erradas, porque as escolhas que fazemos igualmente moldam quem nós somos; por isso enquanto você não escolher, todas as opções ainda são possíveis, mas tudo que elas representam também se tornam ilusórios, o medo de escolher, te faz ninguém!

A trilha sonora é perfeitamente sutil como o filme pede; a edição é pontual, por mais que há princípio torne a história ainda mais confusa para alguém que já não seja capaz de compreender tudo que é defendido pelo enredo da obra; a montagem e os efeitos visuais se encaixam precisamente com o que o filme se propõe a passar, um filme que fala de amor, fala de anjos do silêncio e de naves espaciais indo para marte; o filme é impecável em cada analogia presente nele.

A direção do filme é impecável, enquanto as atuações, tanto de Jared Leto, que não deve às grandes atuações de sua carreira que já lhe renderam a estatueta do Oscar, quanto de suas “versões jovens” Toby Regbo e Thomas Byrne, tornam Nemo um personagem cativante, enquanto as de Diane Kruger e Juno Temple tornam o romance com Anna um maravilhoso alívio para a chuva de informações científicas um tanto maçantes presentes na trama, mas que quando juntando como um todo fica em segundo plano quando nos reparamos com a brilhante atuação de Sarah Polley como Elise, fascinante, todo elogio é pouco.

Sr. Ninguém é irretocável em tudo aquilo que se propõe, um filme que não faz o mesmo de sempre, que se arrisca, uma visão diferenciada de se fazer cinema, com detalhes que fazem jus ao bom elenco que tem e com cada detalhe impressionante explicam por se só o porquê do filme de 2009 é hoje considerado quase um clássico do cinema cult.

Avaliação: ✭✭✭✭✭

@MarqueOsMarques

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